Nem tudo são flores quando se viaja pela Ásia, antes pelo contrário, histórias de guerra, pobreza, trabalho escravo, direitos humanos nulos, entre outra sorte de desgraças fazem parte do aprendizado. É claro que você sempre tem a opção de ligar o modo poliana e ver tudo cor de rosa, mas ainda bem que meu senso crítico, aliado a minha veia jornalística torna isso bem difícil.
Seguem as fotos do museu do genocídio, visita quase obrigatória na capital Knom Pnem, lugar ultra triste, mas que serve de memória para que isso não se repita.
Não teria como deixar de conhecer o Cambodia ignorando o fato de que há menos de 30 anos aquele país foi palco de umas das maiores tragédias da humanidade, um genocídio comparado a segunda guerra mundial, que matou um terço da população do país, ou seja, cerca de 3 milhões de Cambojianos em apenas 3 ANOS, durante o governo de Pol Pot.
É muito deprê contar essa história, mas não tem como não pensar nisso quando se está lá, é quase como se uma atmosfera densa habitasse o ar, uma ferida aberta, uma veia sangrando, uma aberração inexplicável, um psicopata comandando o país e matando seus próprios compatriotas.
Na ocasião desse genocídio o mundo vivia o auge da guerra fria: comunismo versus capitalismo. No país vizinho ao Cambodia acontecia a guerra entre os EUA e o Vietnam, e como não poderia deixar de ser isso acabou fortalecendo o partido comunista no Cambodia, cujo mentor era conhecido como Pol Pot.
O país vinha sofrendo sucessivas guerras civis, estava uma bagunça e o povo dividido, não sabia em quem confiar para o comando da nação. Numa dessas reviravoltas, enquanto o rei estava fora, houve um golpe de estado que colocou Pol Pot no poder sob o comando de um partido, ou exército, chamado Kmer Rouge ou Kmer vermelho.
Por algumas horas a população se sentiu aliviada, imaginando um futuro melhor. Mas ainda no mesmo dia o Kmer Rouge mostrou a que veio, começando assim o banho de sangue que inundaria o país nos próximos anos.
O Kmer Rouge começou a evacuar as cidades com o propósito de descentralizar o poder, evitando assim uma possível retaliação ao novo regime. Para isso transportou a população dentro de caminhões aos campos de concentração, enquanto se apoderava de seus bens, como motos, carros e casas, com a justificativa que serviria ao partido.
Imediatamente famílias inteiras foram removidas de suas cidades natais e levadas a lugares ermos e com péssima infra-estrura, algumas famílias se perderam no meio do caminho, e foram levadas para lugares diferentes. Nos campos eram obrigadas a trabalhar reconstruindo vilas, onde seriam reeducadas sob os dogmas do partido.
Obrigadas a trabalhar para o Kmer Rouge, passavam fome, pois não havia comida suficiente para todos, e muitas vítimas começaram a morrer de inanição, ou, devido a baixo resistência, eram facilmente abatidas por doenças e não conseguiam sobreviver. Os mais rebeldes eram levados para uma reeducação especial na floresta e nunca mais voltavam. Até hoje são descobertos dezenas de esqueletos nas florestas Cambojianas.
Caso a pessoa tivesse diploma, ou qualquer educação superior, era executada imediatamente. Para o Kmer as pessoas com nível educacional elevado representavam perigo aos ideais igualitários do partido, dessa maneira, quase todos os intelectuais do Cambodia se extinguiram, não deixando o país com grande possibilidades de crescimento futuro.
Aos poucos famílias inteiras iam morrendo de fome, doenças, assassinatos e toda sorte de desgraças num prazo de apenas 3 anos.
Isso acabou graças ao partido comunista do Vietnã, que invadiu o país e tirou o Kmer Rouge do poder. Alguns anos depois o Cambodia se tornou uma democracia, mas segundo as palavras do jornalista italiano que cobriu a Ásia por décadas, Tiziano Terzani, o Cambodia precisa de curandeiros e psicoterapeutas, mais do que de democracia.
Não cabe a mim entender tamanha loucura, mas não pude deixar de contextualizar o que vi com o que aconteceu no passado. Infelizmente o Cambodia é um dos países mais pobres do sudeste asiático, além de lindo e muito interessante.
Seguem as fotos do museu do genocídio, visita quase obrigatória na capital Knom Pnem, lugar ultra triste, mas que serve de memória para que isso não se repita.
















